Estava para aqui sentada
chegada da praia
que não pisava fazia anos.
Este lugar perdido
do qual não sinto vontade de sair
nem forças,
Trouxe-me memórias de muitos tempos
Adormeci 5 m no sofá
enquanto o almoço se fazia
e acordei num sobressalto
de tristeza e desejo
que a morte deste probre animal fose uma daquelas mentiras,
mas aliado a esse sobressalto
lembrei-me das cassestes,
sim, das cassetes e do rádio!
Sim, eu sou do tempo das cassetes,
e dos rádios com cassetes, apenas
e não foi assim à tanto tempo.
A mim cabia-me a incumbencia de lavar a loiça
a seguir ao almoço -
muitas foram as vezes que era também a que ficava do jantar,
mas, sinceramente, não me interessava
desde que me deixassem ouvir as minhas e só minhas,
sempre iguais,cassetes dos doors
e beber café com o meu "Jim" e o bando
imediatamente a seguir ao jantar,
eu lavava todos os pratos e panelas,
tinha era de ser ao almoço!
Até porque, mandava a "lei"
esperar três infinitas horas, até ir ao banho!
Mas naquele Verão não interessava,
aquele, era mais um momento só meu.
Eram assim,
aquelas férias, as das Paixões,
o tempo era lânguido,
quente,doce
e o Inverno que se seguiu, gelado
foi passado a pensar no próximo Verão.
Naqueles meses quentes, conheci-o
era ainda mais louco que eu
em tudo,
em particular no seu fanatismo pelos doors.
Cantava-me ao ouvido
enquanto procuravamos
- com o nosso bando,
a duna perfeita,
longe dos olhares dos pais,
para fumarmos os nossos cigarros.
Na verdade, só eu gostava de praia
e eu gostava de cigarros
porque gostava deles
e eles vinham para a praia
porque gostavam de mim,
quando estava muito calor
fugiamos para o pinhal
até chegar a hora do mergulho -
do meu em particular
e claro que o meu "Jim" me acompanhava!
com pele de galinha, a tremer de frio,
indignado com aquela minha vontade de àgua -
mas sempre armado em forte,
nunca tinha frio, era o vento, dizia ele...
e cantava tão bem
e sabia as letras todas
não era nada bonito,
tinha uma cabeça grande,
Era rude com todos,
tomava partido da sua inteligência
para negligenciar tudo e todos
mas era um alucinado,
gostava de doors
vestia-se de preto
passava as noites em claro, a ler
e quando fumava, deitava o fumo pelo nariz
e estava apaixonado,
por mim
Era uma altura que o sexo ainda não existia
para nenhum de nós
mas todos estavamos apaixonados
Havia a dita magia,
em que todas as coisas ridiculas
podiam ser incrivelmente belas
Lembro-me da hora da despedida,
após 3 meses,
recusei namorar com ele
achava que me ia trair,
gostava muito da vida no limite
e as meninas muito dele
e nessa época, eu, muito inocente
ainda com uma réstia de fé em deus,
recusava fazer o papel da rapariguinha encornada
cujo pai não a deixa sair de casa,
a não ser naqueles meses de Verão.
Foi duro, esse Inverno.
Toda a negação aguçou o desejo
e passava as noites e os dias a pensar no próximo Verão -
que obviamente foi tudo menos igual,
O Verão seguinte foi o das vinganças,
ele nunca me perdoou
Hoje, no sitio onde iamos os dois
fumar cigarros,
escondidos e apaixonados-
enterrei o meu gatinho,
até tinha sido "baptizado"pela minha madrasta
chamava-lhe:Sortudo!
e eu pensava sempre:
"como é que um animal,
arrancado da mãe à força,
atirado a um caixote do lixo
acabado de nascer,
pode ser um Sortudo?!"
Mas, claro, no fundo no fundo
tentei embarcar no espirito optimista
achei que ia sobreviver,
ser o gato mail lindo do Universo...
até ontem...
hoje a aurora que contemplava os seus 15 dias de vida,
viu-o partir,
garanti que ao lixo não tornava mais,
o mar será a sua paisagem eterna
E aqui ficará,
nesta areia branca
mais uma memória dos meses de Verão...